Entrevista a Ana Panoias

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Ana Panoias

Nascida na Guarda em 1993, Ana Panoias é licenciada em arquitetura paisagista pela UTAD. Vive em Massachusetts, onde está a estagiar no gabinete Ground Inc.

Recém-licenciada, um exemplo do mundo do trabalho lá fora

Publicação: APart. Entrevista: Nádia Parreira. Fotografias: Ana Panoias

APart: Como recém-licenciada em Arquitetura Paisagista na UTAD, de que forma esta aprendizagem te preparou para dares o “salto” em direção ao mundo profissional?

A partir do momento que passas três anos da tua vida aprender sobre uma coisa específica e absorver informação acerca desta, acho que sabes que estás preparada para começares a utilizar isso e no entanto continuar assimilar ainda mais. Porque o muito nunca é suficiente.

APart: O que te fez embarcar numa aventura desta escala, numa fase ainda tão preliminar da tua carreira?

Acho que em primeiro lugar temos de estar conscientes que não somos mais umas crianças e que há muita coisa acontecer à nossa volta e que nalgum momento vamos ter de nos “lançar” a sério na vida. Porque não agora? Surgiu a oportunidade e aproveitei-a, tinha acabado a licenciatura e nada me prendia, (posso continuar os meus estudos mais tarde), não é um ano que me vai tirar o ritmo, muito pelo contrário. Tem sido muito proveitoso e uma experiência que me permite afirmar que quero sem dúvida continuar o meu processo de aprendizagem.

APart: Estando já algum tempo em Boston, uma outra realidade daquilo a que estavas habituada, como explicas essa transição e adaptação?

Tem sido ótima. Adaptei-me logo na primeira semana. Sempre fui uma pessoa comunicativa e desenrascada. Não precisas de muito para te adaptares a um lugar, basta seres flexível contigo mesma.

APart: Em poucas palavras de que maneira defines a vida social e profissional em Boston?

Proactivity. As pessoas aqui dão muita importância à tua capacidade de tomar iniciativa, digo até que é fundamental.

APart: Estando a trabalhar numa outra escala e uma realidade completamente distinta do teu conhecimento e aprendizagem de que forma foi gerida essa situação?

Não é diferente do meu conhecimento, como já referi anteriormente, saí da UTAD bem preparada e familiarizada com muita coisa. Por isso, não foi preciso gerir muito, só continuar a fazer o que vim fazendo até aqui, procurar o conhecimento e aplicá-lo.

APart: Os espaços verdes americanos estão adaptados aos layers da sociedade? Ou a conceção dos projetos, é algo que extravasa esse fator?

A meu ver, estão sem dúvida muito mais adaptados que em Portugal. As pessoas aqui sabem dar valor a um Arquiteto Paisagista e a um espaço criado por ele. Sabem tirar o proveito máximo de cada um. Quer sejam espaços públicos para crianças, quer para qualquer outra faixa etária.

APart: É sabido que Emerald Necklace projeto de Olmsted tem um grande impacto a nível social, como descreves isso?

Sim, o Emerald Necklace foi sem dúvida o projeto mais importante para a cidade de Boston, uma vez que este veio a melhorar as condições sociais com a capacidade que o Olmsted teve para contornar os problemas de retenção de água. As pessoas quiseram deslocalizar-se todas para a zona em redor do parque para que pudessem tirar o máximo proveito dele.
Nele podemos deparar-nos com muitos lagos, espaços de recreio passivo, recreio ativo, hortas comunitárias… É sem dúvida um projeto muito apreciado e bem utilizado pela sociedade.

APart: Em termos de realização e conceção de projeto, consideras o High-Line um bom exemplo para assinalar o que de melhor se faz como arquiteto paisagista?

Em termos de ser o melhor exemplo ou não eu não sei, uma vez que não conheço todos os projetos realizados no mundo e, tal como tu, sei que existem vários e muito bons por aí.
Todos os projetos são diferentes e todos eles, de alguma forma, contribuem para uma melhoria a nível social, porque caso contrário não seriam construídos, penso eu. Porém particularmente sobre o High Line o que tenho a dizer é que foi realmente um projeto que mudou muito, em específico, a zona de Chelsea em Nova Iorque, uma vez que esta era uma zona pouco apelativa e escura. Os comboios que passavam naquela linha eram essencialmente de comida e mercadoria, era uma zona que causava alguma repugnância aos habitantes, sendo conhecida como zona onde se cortavam as carnes. Este projeto é particularmente interessante porque os próprios “mentores” eram dois homossexuais que apenas achavam que aquela zona devia ser aproveitada e que deviam tirar partido dela. Sendo um local abandonado, eles pensaram fazer algo que cativasse a sociedade. Foi então que começaram a organizar festas e vários eventos ali. Mais tarde, quando os certames começaram a ser os mais bem frequentados de NY, decidiram que devia ser construído ali algo, não sabendo exatamente o quê, uma vez que eles não eram designers nem paisagistas, apenas sabiam que havia ali um local com potencialidades para ser um espaço apelativo e que pudesse cativar mais pessoas de forma a “limparem” a zona de toda a conotação negativa que tinha até então. Posto isto, decidiram questionar o público sobre qual a melhor solução para aquele lugar. Foi aí que se formou uma equipa de trabalho, diversificada, e é por isso que o High Line é um projeto especial, não só pela sua visível beleza, mas também porque foi pensado, projetado e concretizado por várias cabeças e opiniões. Atualmente é das zonas mais caras de NY, rodeada de edifícios caríssimos e galerias de Arte.

APart: Do ponto de vista de uma recém-licenciada em Arquitetura Paisagista, quando embarcaste nesta aventura, qual o primeiro local que mais ansiavas explorar, aquele que tanto procuravas estar em contacto?

Sempre tive uma pequena paixão pelo desenho urbano, e após uma ou duas semanas de viver em Boston pensei “Oh meu Deus, isto é incansável!… Imagino como será NY, vou apaixonar-me”. Assim, NY passou a ser o local que mais ansiava ver e contactar. Por isso, passado um mês… Fui apaixonar-me. É sem dúvida uma cidade incrível. Todas aquelas ruas paralelas e perpendiculares, pessoas sempre de um lado para o outro, é realmente a cidade que não pára. E claro aquele Central Park no meio daquela urbanização… Nem consigo descrever o que senti quando estava lá no meio, parece impossível e quase inacreditável que estás dentro de uma cidade daquela dimensão, depois de sentires toda aquela natureza tão próxima de ti. É fabulosa, fascinante, bela, inspiradora, não tenho palavras suficientes para caracterizar Nova Iorque e o meu sentimento por esta cidade. As pessoas precisam de ir a NY para sentir e saber o que é.

APart: Qual foi o projeto com que mais te identificaste?

Identifico-me com muitos espaços verdes aqui, mas noto que tenho um carinho especial pelo High-Line, por tudo o que ele representa.

APart: Qual a distinção, dentro do contexto da atual sociedade em que vives para a nossa, na forma como as pessoas utilizam e interagem com os espaços verdes?

A maior diferença, que aliás foi a primeira coisa que logo captou a minha atenção, assim que cheguei, está ligada com as crianças. Os parques infantis são fantásticos. É inacreditável a atividade diária que eles têm. Acho que aqui as crianças sabem interpretar com excitação a pergunta “Vamos ao parque?”.

APart: Quais as perspetivas para um futuro próximo, ainda que fora do território nacional? E quando regressares?

Vou andar a viajar no mês anterior ao meu regresso. Quando regressar? Vou dar um beijo enorme aos meus pais e esmagá-los com abracinhos e agradecer terem-me “deixado voar”, literalmente. (risos)

APart: Numa palavra: define a tua experiência.

Happiness? Ai Felicidade. (risos)

 

Entrevista publicada originalmente no nº1 da revista APart, editada Núcleo de Arquitetura Paisagista.

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