Os jardins do Palácio de Mateus, por Ângela Silva

Fachada principal, árvores seculares, espelho de água e escultura. Angela Silva, 2015

O Palácio de Mateus pertence a uma vasta propriedade, onde se cruzam as funções de recreio e contemplação com as de produção e agrícola. A harmonia de todos os elementos define um conjunto único, de monumentalidade singular.

O Palácio de Mateus é uma casa solarenga que espelha o imponente barroco do norte de Portugal, estando classificado como Monumento Nacional desde 1911. O edifício original teria sido construído no início do século XVII, mas ainda na primeira metade do século XVIII surgiria no seu lugar uma casa melhorada, neste período propriedade do terceiro Morgado de Mateus, António José Botelho Mourão. Existem referências sobre o arquiteto Nicolau Nasoni, que teria deixado o seu cunho pessoal na construção do palácio, tornando-o numa das obras mais importantes da arquitetura civil barroca.

Vista para a fachada principal da casa, com corpo central recuado junto ao pátio, orientados segundo o eixo principal da propriedade. Angela Silva, 2015

Na construção do edificado destaca-se o trabalho em pedra desenvolvido na estatuária, escadarias, balaustradas, pináculos e nos inúmeros requintes da decoração de pormenores. De fachadas majestosas, a casa, a capela e a adega definem um conjunto apoiado em planos de simetria que se prolongam para o espaço exterior. O eixo central que atravessa o pátio estende-se para os jardins a nascente, sendo percetível até às áreas de produção, onde encontra toda a paisagem envolvente.

A propriedade acompanha o declive do terreno e estrutura-se em terraços ou patamares, interligados por escadarias, cujas cotas vão sendo sucessivamente mais baixas para nascente. A partir da entrada principal um percurso descendente, integrado por uma mata com uma vasta coleção de árvores de grande porte, culmina em surpresa no grande terreiro. Ocupado por um lago de grandes dimensões que espelha o imponente conjunto diante de quem o contempla, sobressaem as fachadas da casa e da capela, assim como as árvores seculares ali plantadas. O desenho deste espaço fronteiro ao palácio está ligado à primeira geração de arquitetos paisagistas portugueses, com autoria de Gonçalo Ribeiro Telles, nos anos sessenta do século XX. O lago, para além da sua nobre função como espelho de água, acolhe canteiros ao longo das suas laterais, fazendo lembrar os alegretes que pontuam os jardins e as fachadas da casa, assim como uma escultura em mármore de uma mulher, colocada vinte anos mais tarde, realizada por João Cutileiro.

Vista sobre o conjunto jardim-casa do lado Nascente, a partir da zona de fresco ensombrada por camélias. Angela Silva, 2015

Acompanhando as fachadas sul e nascente, desenvolvem-se no mesmo patamar os jardins mais antigos da propriedade, ali desde o século XVIII. Passando as árvores seculares Cedrus deodara e Chamaecyparis lawsoniana, plantadas em 1870, ao longo da fachada sul da casa, rematada por um alegrete em toda a sua extensão, sucedem-se jardins com canteiros de buxo talhado, com percursos definidos por sebes, por vezes cruzadas em arcos, enquadrando diferentes perspetivas sobre toda a envolvente. Junto desta área vêem-se estruturas como a eira ou o tanque ornamentado por um obelisco em granito, anunciando a transição dos jardins ornamentais para as áreas de produção, nomeadamente as vinhas e os pomares. Esta área de jardim interliga-se com a seguinte, associada à fachada nascente da casa. Vislumbra-se um parterre, de carácter formal e altamente ornamental, estruturado simetricamente em torno do eixo central que atravessa a casa. O buxo anão está cuidadosamente topiado, com os seus cantos pormenorizados em forma de semiesferas. As fiadas de buxo, simples ou duplas, delimitam os canteiros que contém uma grande diversidade de plantas com flor, como as azáleas, as rosas ou os lírios, assim como a estatuária que surge ao longo do espaço, de onde sobressai um relógio de sol em granito. Do conjunto destacam-se duas grandes esferas vegetais topiadas, a fonte central em granito com repuxo circundada por canteiros que acompanham o seu contorno, e uma zona de fresco, magnificamente enquadrada por camélias antigas, que fecham toda a unidade, dando a este jardim um caráter único.

Na extensão do eixo central, a partir da zona de fresco, estende-se para um patamar de cota inferior, interligado por uma escadaria em granito, um enorme túnel de cedros feito no anos cinquenta do século XX, que envolve quem nele passa, proporcionando um grande contraste entre as áreas de luz e de sombra. Este túnel distribui o percurso para outros jardins à mesma cota. De um lado, construído neste mesmo período, um conjunto de três tanques em granito desenhado por António Lino, que definem um parterre de água; do lado oposto dois parterres distintos separados por uma grande parede verde, talhada em buxo. Construído por Gomes Amorim nos anos trinta do século XX, o jardim mais próximo do túnel é delineado por canteiros de formas geométricas, com buxo talhado e plantas anuais no seu interior, onde também enquadram Lagerstroemia indica, que pontuam fortemente toda a unidade. Separado pela parede de buxo surge o outro jardim, desenhado por Paul Bensliman no mesmo período da construção do túnel e do parterre de água. Envolve uma composição com inertes e buxo rasteiro talhado, que define motivos vegetalistas, orgânicos ou em volutas. No limite do jardim, enquadrado por dois grandes ciprestes, integra-se o frontão reconstituído, que anteriormente estava por cima da porta do lado nascente do pátio interior.

No remate da área dos jardins ornamentais, mas ainda na continuidade do eixo central, o túnel de cedros encontra-se se com uma latada de esteios trabalhados em granito, num patamar a uma cota inferior, interligado por outra escadaria. É assim marcada a transição para a área agrícola, onde é possível vislumbrar os extensos vinhedos da propriedade. Passando das áreas de recreio para as áreas de produção, fica clara a noção do equilíbrio entre as duas funções e da relação indissociável com a paisagem que rodeia o todo o palácio.

Da casa aos jardins, do trabalho ao recreio, do ornamental ao produtivo, o Palácio de Mateus mantém o seu património bem vivo, conservando em toda a sua estrutura a maturidade que os séculos conseguiram contar. É um privilégio conhecer; é obrigatório visitar.

Ângela Silva, 2015

Artigo originalmente publicado no nº1 da revista APart, editada pelo Núcleo de Arquitetura Paisagista da UTAD.


About the author: Ângela Silva is a Landscape Architect by UTAD, with a post-graduation in Urban Planning and Design by the Faculty of Architecture of the University of Porto. She holds several other specializations and participations in research projects, but she has developed her professional practice mostly in the local and central administration, in the fields of landscape design urban planning. Her main interests are the history of landscape architecture and design and conservation in historical gardens and heritage sites. She has been teaching at UTAD since 2005.

How to quote: Silva, A. (2015). “Os jardins do Palácio de Mateus”. UTAD-AP Online. Available at http://arquitecturapaisagista.utad.pt/paper001/


 

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