A multiplicidade conceptual de Duiburg Nord – do património ao parque, do parque ao património…, por Luís Loures

Duisburg Nord, Piazza Metallica. Luís Loures, 2008

Duisburg Nord, Piazza Metallica. Luís Loures, 2008

O conceito de património tem sofrido, ao longo do tempo, profundas alterações que possibilitaram a atribuição de significado patrimonial a peças arquitectónicas até então totalmente menosprezadas nas diferentes esferas patrimoniais, extravasando, a jusante, o famigerado limite da era industrial, e deslocando-se para um passado cada vez mais próximo do presente. Neste cenário, estruturas até então consideradas “a origem de todos os males” passam a ser encaradas como um capital a incorporar na cidade moderna, um elemento diferenciador com capacidade de atrair e gerar riqueza, de catalisar e fazer cidade, considerando não só a sua relação com a paisagem, mas também a relevância sociocultural no contexto em que se inserem.

Duisburg Nord, Diagrama funcional do programa implementado. Luís Loures, 2011

Duisburg Nord, Diagrama funcional do programa implementado. Luís Loures, 2011

Esta “nova” forma de pensar/entender o património, como um objeto de investimento no presente e não apenas de adoração do passado, associada ao valor patrimonial e à criação de documentos normativos referentes à valorização e salvaguarda do património e da paisagem industrial sugeriram a imperativa necessidade da sua recuperação e da integração destes espaços nos processos de planeamento contemporâneo, como constituintes preponderantes dum palimpsesto urbano, cada vez mais complexo, dos quais o projeto de Duisburg Nord, desenvolvido pelo arquiteto paisagista Peter Latz constitui um marco significativo.

Inserido no International Building Exhibition – Emscher Landscape Park o Parque Duisburg-Nord, constitui a inspiração e o exemplo para vários projetos de natureza semelhante. Ao definir, literalmente, o parque como uma paisagem pós-industrial, Peter Latz modificou a forma como as pessoas apreendem não só as áreas industriais, mas todos os lugares e espaços que definem uma cultura específica ou integram um determinado fenómeno cultural. De facto, a combinação simbiótica entre natureza e indústria, permitiu criar uma paisagem cheia de memórias e sentimentos, tornando-a num dos símbolos/projetos mais importantes e notáveis das últimas décadas.

A relevância desta abordagem fez com que Duisburg Nord deixasse de ser apenas mais um Parque, para ser uma estrutura multifuncional e multicultural capaz de integrar na mesma paisagem, passado, presente e futuro, intercalados com uma maestria inigualável, onde se fundem o biótico e o inerte, o belo e o grotesco. É impossível falar da evolução dos parques urbanos sem abordar o projeto de Duisburg, tal como é impossível pensar em património industrial sem pensar na forma como este foi celebrado no projeto de Peter Latz. A forma engenhosa como o programa do parque se funde com o passado industrial, associada ao desafio de desenvolver um parque público num espaço com estas características, reutilizando quase tudo de alguma maneira, revela uma postura humilde e cada vez mais rara na profissão, que permite destacar o “espírito do lugar”, em detrimento da genialidade do criador.

Duisburg Nord, Jardim temático - antigo espaço de armazenamento de carvão. Luís Loures, 2008

Duisburg Nord, Jardim temático – antigo espaço de armazenamento de carvão. Luís Loures, 2008

A abordagem utilizada, baseada em descontinuidades e na fragmentação do espaço, procura uma nova interpretação dos elementos e estruturas existentes articulando-as em camadas organizadas tanto espacial, quanto historicamente, procurando criar uma paisagem que combina a intervenção humana e os processos naturais para criar um ambiente que não poderia ser criado de forma independente.

Considerando a configuração do antiga paisagem industrial, a estratégia proposta permitiu desenvolver um programa no qual as estruturas industriais abandonadas foram adaptadas a novas funções culturais, recreativas e corporativas – como são disso exemplo, a piazza metallica, a escola de mergulho, construída num dos antigos gasómetros e/ou as paredes de escalada, criadas em antigas zonas de armazenamento de carvão – distribuídas por um conjunto de áreas funcionais específicas, com o objetivo de desenvolver um parque multifuncional.

Tanto os elementos construídos como o espaço aberto contêm uma riqueza de camadas de informação que podem existir fisicamente, ser visíveis ou invisíveis, ou ser meramente abstratas. O desafio é libertar os sentidos, escolher e estar aberto a novas impressões na descoberta de uma Paisagem ímpar, construída tendo por princípio uma abordagem que destaca a importância da utilização de uma base teórica forte na elaboração de projetos de arquitetura paisagista. A cada passo, cada olhar a abordagem projetual relembra-nos de que não nos podemos esquecer, que aquela Paisagem é o resultado da intervenção humana marcada por diferentes fases da história industrial e que constitui, por isso, um valor que não pode ser descurado.

Nunca saberemos quem somos e para onde vamos se não soubermos quem fomos e de onde viemos…

Luís Lores, 2015

Artigo originalmente publicado no nº1 da revista APart, editada pelo Núcleo de Arquitetura Paisagista da UTAD


Luís Loures is a Landscape Architect, guest professor at UTAD, and a Professor at Escola Superior Agraria De Elvas (ESAE) in the Polytechnic Institute of Portalegre. He holds a Ph.D. in Urban Planning, and has published several peer reviewed papers at the national and international levels and he has been a guest researcher/Professor at several Universities including Michigan State University (USA), University of Toronto (Canada), Letterkenny Institute of Technology (Ireland), University of Algarve (Portugal), Ryerson University (Canada), among others. His research is mainly focused on urban redevelopment and environmental planning issues.

How to quote: Loures, L. (2015). “A multiplicidade conceptual de Duiburg Nord – do património ao parque, do parque ao património”. UTAD-AP Online. Available at http://arquitecturapaisagista.utad.pt/paper003/


 

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