As Hortas Urbanas como espaços verdes emergentes na cidade, por Maria Inês Sousa

A prática da agricultura em ambientes urbanos não é uma contradição, dado que sempre esteve presente na dinâmica urbana das cidades. Se refletirmos, na história da humanidade é possível observar essa correlação. Os espaços (verdes) produtivos situados dentro e nas periferias dos aglomerados urbanos sempre constituíram uma importante fonte de produção de alimentos e em lugares de socialização. No entanto, a Revolução Industrial e Agrícola, seguida de um impressionante crescimento demográfico das cidades e do consequente Êxodo Rural, provocou, de certa forma, a fragmentação da relação natural/urbano.

Vista área e organização interior de uma Associação de Hortas Urbanas em Poznan, Polónia. Maria Sousa, 2013.

Vista área e organização interior de uma Associação de Hortas Urbanas em Poznan, Polónia. Maria Sousa, 2013.

No século XXI, apesar do desenvolvimento urbano se encontrar no seu auge, começam-se a perceber certos indícios de retorno da agricultura às cidades, e a necessidade de se pensar num novo conceito de cidade é cada vez mais vinculada, como é referido por Gonçalo Ribeiro Telles e Pierre Donadieu. A visão destes dois autores demonstra que manter a cidade e o campo ligados passou de uma visão futura a uma necessidade presente, cada vez mais emergente. Sobre isto, Gonçalo Ribeiro Telles defende ainda que para manter estes dois sistemas juntos (urbano e rural) é necessário repensar na agricultura como um elemento fundamental do espaço urbano. Torna-se, então, a agricultura urbana numa das soluções possíveis para a junção destes sistemas.

Vista área sobre as Hortas de Naerum (De Runde Haven) e a sua envolvente. Fonte: http://www.vulgare.net/

Vista área sobre as Hortas de Naerum (De Runde Haven) e a sua envolvente. Fonte: http://www.vulgare.net/

As diversas definições de Hortas Urbanas (HU), apresentadas por vários autores, permitem constatar que a agricultura urbana, sob este desígnio, é um meio útil para fornecer alimentos e apoiar a economia familiar dos cidadãos. No entanto, os benefícios e usos múltiplos associados a esta prática agrícola não se resumem apenas a estes fatores. Benefícios sociais, individuais e coletivos, e ambientais também ocupam lugar de destaque nestes espaços. Perante estes benefícios, verifica-se que as HU são um elemento de aproximação do rural com o urbano, explicado e pretendido por Gonçalo Ribeiro Telles, que ao longo dos anos tem defendido a sua implantação nas cidades portuguesas, tendo como exemplo os países do Norte da Europa que já há vários anos o fizeram.

Hortas Urbanas na Alemanha: dois exemplos de diferentes formas de organizar estes espaços de cultivo. a: Associação de Hortas Urbanas Dr. Scherber e. V., em Leipzig - Vista área. (Fonte: Google maps); b: Organização de uma parcela dentro da associação Dr. Scherber e.V. (Fonte: http://www.leipzig.de); c: Allmende Kontor, Tempelhof Berlin: Antigo aeroporto de Berlin reaproveitado para produzir e ao mesmo tempo ser um espaço de jardim. Fonte: http://www.sounds-like-me.com/.

Hortas Urbanas na Alemanha: dois exemplos de diferentes formas de organizar estes espaços de cultivo. a: Associação de Hortas Urbanas Dr. Scherber e. V., em Leipzig – Vista área. (Fonte: Google maps); b: Organização de uma parcela dentro da associação Dr. Scherber e.V. (Fonte: http://www.leipzig.de); c: Allmende Kontor, Tempelhof Berlin: Antigo aeroporto de Berlin reaproveitado para produzir e ao mesmo tempo ser um espaço de jardim. Fonte: http://www.sounds-like-me.com/.

Tendo em conta que as HU são uma das opções viáveis para a implementação da agricultura nos espaços urbanos e que esta atividade não constitui apenas uma forma de suprir dificuldades económicas, sendo encarada também como ocupação recreativa e terapêutica, é possível referir que estas se tornaram parte essencial da vida urbana dos dias de hoje. Por exemplo, em Portugal estão a tornar-se num novo e importante tipo de espaço verde público, oferecendo uma grande variedade de funções, como: recreação; valorização do sentido de comunidade aos níveis pessoal e social; sentidos pedagógico e terapêutico; e ainda um forte poder na contribuição para o equilíbrio ecológico da paisagem urbana como espaços de regeneração.

"Leisure Garden" - Já em 1975, em Birmingham, foram realizadas propostas para modernização das Hortas Urbanas, tornando-as em espaços de recreio e lazer. O modelo "Leisure Garden", desenvolvido em Russell Road é um desses exemplos. Fonte: http://www.libraryofbirmingham.com/

“Leisure Garden” – Já em 1975, em Birmingham, foram realizadas propostas para modernização das Hortas Urbanas, tornando-as em espaços de recreio e lazer. O modelo “Leisure Garden”, desenvolvido em Russell Road é um desses exemplos. Fonte: http://www.libraryofbirmingham.com/

Atendendo às diversas funções das HU e o caráter multifuncional por elas adquirido, pode dizer-se que o seu futuro está dependente de lógicas modernas que justifiquem a retenção e o compromisso entre o cultivo da terra e o seu papel como recurso paisagístico e de lazer. Dessas lógicas, salienta-se o design e o papel que este pode desempenhar para garantir o futuro das HU, preservando os seus princípios ao mesmo tempo que acompanha os novos indícios de mudança. Por exemplo, David Crouch, no Guia Growing in the Community, identifica como essencial para o futuro destes espaços a mudança do acesso, por exemplo, à realização de hortas com ambiente mais aberto, ou seja, que valorize a existência de espaços verdes mais amplos, através de projetos que incentivem a contemplação (ou recreio passivo) e estimulem, também, o utilizador a “trabalhar a terra”, ao mesmo tempo que potencializa as relações sociais. Assim, é possível explorar o espaço entre parcelas para acomodar os utilizadores de uma forma mais inovadora, misturando os microespaços de produção com equipamentos de partilha como bancos, mesas, elementos de arte, etc.

Horta da Quinta da Gruta, Maia. Maria Sousa, 2014

Horta da Quinta da Gruta, Maia. Maria Sousa, 2014

Esta visão ajuda a perceber como as HU podem contribuir para o equilíbrio ecológico da paisagem urbana – podem promover as mesmas qualidades de vida que os parques e jardins oferecem, mas de uma maneira menos dispendiosa e, acima de tudo, mais sustentável, uma vez que todas as matérias produzidas podem ser rentabilizadas e reutilizadas nos espaços de produção.

Horta da Senhora da Hora, Matosinhos. Maria Sousa, 2014

Horta da Senhora da Hora, Matosinhos. Maria Sousa, 2014

Os paradigmas ecológicos e da sustentabilidade motivam a introdução da Natureza na cidade, o que privilegia gradualmente as estruturas verdes urbanas e metropolitanas. As novas preocupações ambientais vêm ajudar na definição de novos limites da expansão das cidades e na sua recuperação. Deste modo, as HU tornam-se elementos importantes na redefinição e estruturação paisagística da cidade, onde a Arquitetura Paisagista tem um papel cada vez mais importante neste campo. Às componentes ecológica e da sustentabilidade, o Arquiteto Paisagista tem a arte de acrescentar a estética e o desenho, sem marginalizar os elementos que contribuem para a atração e estadia de todos os utilizadores.

Horta da Lada, Porto. Maria Sousa, 2014

Horta da Lada, Porto. Maria Sousa, 2014

Maria Inês Sousa, 2015

Artigo originalmente publicado no nº1 da revista APart, editada pelo Núcleo de Arquitetura Paisagista da UTAD


Maria Inês Sousa é natural do Pêso da Régua. Licenciada e Mestrada em arquitetura paisagista pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Desenvolveu a sua tese de Mestrado, defendida em 2014, sobre a definição de um modelo desenhado de Hortas Urbanas baseado no programa “Horta à Porta” da LIPOR. É colabora de investigação na UTAD para o projeto de inventário das Hortas Urbanas em Portugal. Integra a equipa de investigação da ação COST TU1201 sobre as Hortas Urbanas na Europa.

How to quote: Sousa, M. (2015). “As Hortas Urbanas como espaços verdes emergentes na cidade”. UTAD-AP Online. Available at http://arquitecturapaisagista.utad.pt/paper004/


 

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