Espaços exteriores Terapêuticos, por Lina Fidalgo Fernandes

A ideia de que os jardins podem ter funções terapêuticas e de regeneração, vem já de muitos anos atrás. É conhecido que os jardins e as hortas pertencentes aos mosteiros medievais eram espaços abertos realizados com objetivo específico de proporcionar bem-estar, que ofereciam sombra e sol, ervas medicinais e espaços para meditar e caminhar.

Nem sempre esta ideia foi apoiada, mas é certo que o afastamento (físico e cultural) do ambiente natural acarreta consequências negativas no bem-estar, especialmente em populações urbanas e, como tal, volta-se hoje novamente a atenção para os efeitos benéficos da natureza, tanto para o corpo como para a alma. São vários os autores que se debruçaram sobre esta temática: Clare Cooper Marcus; Marni Barnes; Roger S. Ulrich; Gerlach-Spriggs; Martha M. Tyson; Rachel Kaplan e Steven Kaplan, e outros que seguiram estes pioneiros.

Jardim Medieval (claustro monástico): exemplo de um antigo espaço ao ar livre com funções terapêuticas para pacientes doentes. (Marcus, 2005)

O termo “terapêutico” é bastante amplo, mas em geral é usado para referir o bem-estar, físico ou psicológico, dos indivíduos, que resulta de um benefício. Assim sendo espaços exteriores terapêuticos são áreas naturais ou seminaturais capazes de ajudar na recuperação dos laços das pessoas com os seus ambientes naturais, ajudando a manter ou recuperar a sua saúde física e mental, o que por conseguinte se reflete no bem-estar.

Os espaços terapêuticos podem cobrir várias tipologias, incluindo espaços para pessoas com deficiência e idosos, jardins hospitalares, ambientes infantis, hortas, e jardim projetados especificamente para pessoas com algum tipo concreto de doença.

Em todo o caso, de uma forma abrangente, qualquer jardim pode ser considerado como um Jardim Terapêutico, já que as pessoas podem deles retirar benefícios restauradores, independentemente das necessidades de saúde. Organizemos então os benefícios:

a) Benefícios ao nível cognitivo:
– Aprendizagem de novas habilidades e linguagem;
– Melhoria do processo, individual, de tomada de decisão/resolução de problemas;
– Aprendizagem da forma de seguir instruções complexas
– Aprendizagem da forma de trabalhar com independência
– Aumento da consciência do mundo à sua volta.
– Recuperação da fadiga provocada pela atenção direcionada;
– Oportunidade de refletir sobre os problemas pessoais mais imediatos e por resolver;
– Oportunidade de refletir sobre as grandes questões como prioridades e objetivos pessoais

b) Benefícios a nível psicológico:
– Melhoria da autoestima e autoconfiança;
– Sentido de responsabilidade no envolvimento ativo com o espaço (trabalho com as plantas);
– Aumento da motivação e produção;
– Indivíduos mais pacíficos e tranquilos o que permite maior abertura para falar dos problemas;
– Aumento da autonomia e competência de observação;
– Ajuda em utilizar as habilidades e em resolver os problemas;
– Incentivo à criatividade;
– Alívio do stress e da raiva e em consequência o controlo das emoções

c) Benefícios a nível físico:
– Aumento da intensidade do movimento;
– Melhoramento das habilidades motoras, da coordenação e equilíbrio;
– Aumento da força muscular;
– Estímulo das atividades musculares por parte daqueles que necessitam movimentar os músculos.

d) Benefícios a nível social:
– Aumento da interação social e apoio;
– Aumento das funções imunológicas e do humor;
– Oportunidade de trabalho compartilhado aquando a prática de jardinagem e horticultura;
– Espaços de combate ao isolamento;
– Aumento da autoestima e autoconfiança;
– Diminuição do stress.

Um bom desenho terapêutico estabelece uma relação com o contexto físico e social, com a identidade do lugar, com o carácter formal, e com a cultura dos potenciais utilizadores. Sandra Costa

Quando planeados para potenciar a resposta terapêutica, estes têm como objetivo máximo dar resposta às necessidades e limitações daqueles que o irão usufruir, sendo por isso essencial o conhecimento da doença. Nesta medida, estes espaços devem ser projetados considerando uma estreita ligação entre o arquiteto paisagista (projetista) e os profissionais terapeutas e médicos.

Identificação dos Potenciais Utilizadores dos Jardins Terapêuticos

Consoante as pessoas para quem o espaço é direcionado, deve ter-se em conta o ordenamento de alguns elementos no traçado do jardim.

Elementos para que um Jardim seja considerado Terapêutico

Todos estes, quando aplicados corretamente, ajudam a maximizar o potencial do Jardim Terapêutico, e por isso devem ser considerados logo na fase inicial, ou seja na fase de desenho integral do espaço.

Ao criar um Jardim Terapêutico o foco deve ser a localização, a acessibilidade, os requisitos e preferências dos utilizadores e os elementos de design a incluir. Também uma orientação correta favorece, não só o espaço em situações de conforto microclimático, como também proporciona um maior leque de escolhas no que diz respeito à vegetação, podendo trabalhar aspetos como a floração ou o desenvolvimento mais ou menos vigoroso.

Os utilizadores e os objetivos de cada jardim podem variar, no entanto, uma série de considerações de projeto são comuns a todos. Assim, um Jardim Terapêutico deverá apresentar oportunidades de mobilidade e exercício; apresentar uma escolha entre espaços de interação social e espaços que ofereçam privacidade; facilitar a distração benéfica e a interação, direta ou indireta, com a Natureza.

…[O bom desenho do jardim] emprega a mente sem fadiga, tranquiliza-a e ainda a anima, e isso proporciona um efeito de descanso renovador e revigorante. Frederick Law Olmsted

A escassez de espaços exteriores terapêuticos no contexto nacional, em comparação com aquilo que já se pratica internacionalmente, mostra bem a necessidade de estudar este assunto.

Apoiada nos benefícios e respeitando os princípios de desenho mencionados, surge a proposta para a Quinta Terapêutica da Associação de Paralisia Cerebral de Vila Real (APCVR). Após a análise do espaço de estudo, e das necessidades do público-alvo, verificou-se que o espaço poderia oferecer maior versatilidade e ser mais completo a nível de terapias e por isso seria necessário uma abordagem não só à ideia da horta como espaço de terapia, como a toda a tipologia dos espaços exteriores terapêuticos possíveis.

Numa primeira abordagem à APCVR, constatou-se que, até agora, a terapia se realiza maioritariamente em espaço fechado, o que revelou a necessidade de “levar” algumas práticas para o espaço exterior. Esta proposta deve no entanto respeitar as necessidades dos utentes do espaço e permitir melhorias na qualidade da saúde dos mesmos, através de introdução de atividades no exterior, mais livres e restauradoras.

Plano Geral da Proposta para a Quinta Terapêutica da APCVR

Representação do talude de vegetação que cria uma cortina verde na zona de limite com a estrada.

O tipo de utilizadores, as atividades já praticadas no local e a fraca acessibilidade do espaço foram muito importantes para chegar ao desenho da proposta. Foi proposto um espaço composto por uma compartimentação resultante do revestimento dos taludes com vegetação, o que cria cortinas verdes nos limites do espaço com o exterior; por uma zona florestal, já existente, onde é proposta a beneficiação de acessos; por uma zona de cultivo (Horta Terapêutica) dotada de uma estufa, de talhões livres e talhões sobrelevados e adaptados, ligados a um pomar; por uma zona de clareira livre destinada à prática de exercício físico multifuncional; e por uma zona de Jardim Sensorial.

A Arquitetura Paisagista não é indiferente à necessidade de humanizar os espaços dedicados aos cuidados de saúde, no entanto, em Portugal são ainda escassos este tipo de espaços terapêuticos. Urge aplicar mais este conceito para que as práticas terapêuticas se aproximem do espaço exterior.

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