Torres de Castro e a bioquímica dos jardins

Mentor do Jardim Botânico da UTAD, Torres de Castro conhece o lugar de cada espécie melhor do que a planta das mãos e as suas ideias continuam a brotar vigorosas.

entrevista torres_de_castroLuís Torres de Castro serpenteia pelo Jardim Botânico da UTAD com uma genica invejável para os seus 74 anos. “Há umas tantas árvores que são únicas e uma das minhas preocupações é ver se as multiplico”, comenta. Há recantos que o encantam: o jardim das Resinosas Ornamentais, que pela sua composição é “talvez o mais bonito”, e a coleção das Mediterrânicas Calcícolas, porque “imita a Arrábida”, a paisagem dos seus tempos de catraio.

Concluídos os estudos liceais, Torres de Castro hesitou entre arquitetura e agronomia, ficando-lhe “aquele sentido de ligação às artes”. Sempre teve uma atividade de arquitetura paisagista paralela à docência, mas como um hobbie, “quase um exercício lúdico”.

Quando, em Lisboa, se deparou com “alguma hostilidade em relação aos retornados”, decidiu aceitar o convite de colegas transmontanos que tinha conhecido no Instituto de Investigação Agronómica de Angola. “Quando descia de Lamego para a Régua, apanhei geada e foi uma novidade”, conta. Ficou impressionado com o circuito de Vila Real e a Gomes “repleta de gente numa noite de inverno”. Só na manhã seguinte, se deslumbraria com a Carvalho Araújo, onde confluem traços medievais, barrocos e modernistas: “estavam ali representados quase mil anos de história naquela petit boulevard”.

Apresentou-se na UTAD a 6 de fevereiro de 1976 para ensinar bioquímica. Os primeiros tempos foram “de resistência espartana àquela penúria franciscana” em que estavam instalados no ex-DRM. Com a mudança para a Quinta de Prados, impunha-se “preservar os terrenos agrícolas” e evitar tranformá-la em “Quinta de Prédios”. A escarpa do Corgo, tida como uma “relíquia”, manteve-se intocável, bem como a mancha de carvalhal junto à Veterinária. As prioridades estavam traçadas: integrar os edifícios na vegetação e criar salas de estar ao ar livre para repouso, estudo e convívio. “Foi uma ótica eminentemente paisagística. Depois, percebemos que era importante a vegetação ser orientada para o ensino da botânica.” Germinaram, assim, o jardim das plantas arcaicas e a coleção das aromáticas e medicinais.

Entretanto, houve um simpósio da Associação Ibero-Macaronésica de Jardins Botânicos na UTAD e os responsáveis consideraram que “já havia substância” no campus para ser classificado como jardim botânico. “É um jardim botânico sui generis, completamente aberto e em que a preservação reside na consciência cívica das pessoas e não propriamente em vigilantes”, frisa Torres de Castro. A singularidade do trabalho de jardinagem, que dispensa a tesoura, e a composição subtil estiveram na raiz dos jardins naturalistas.

Houve, naturalmente, “imensas dificuldades” pela limitação de recursos, mas sempre vencidas pelo superior interesse do trabalho feito. Torres de Castro, que empresta o nome ao Jardim Botânico, orgulha-se de ter “concitado todos os esforços”, beneficiando da colaboração entusiástica das pessoas.

Autor do livro “Os Jardins da UTAD”, Torres de Castro é perentório no que toca a fazer jardins: “é preciso estar apaixonado por isso e ter lido muito”. As reminiscências da infância explicam este incondicional amor às plantas: “tinha um quintalinho, em Lisboa, onde gostava imenso de fazer experiências com sementinhas. Foi isso que despertou o gosto pela Natureza”.

Depois dos anos 90, Torres de Castro foi o grande impulsionador do curso de arquitetura paisagista na UTAD.  Deu a disciplina de plantas ornamentais “praticamente no campo” e os alunos “gostavam muito”. “Era uma brutalidade de nomes latinos que tinham de meter na cabeça e, como as plantas estavam classificadas, iam fazer revisões sozinhos ou em grupos.”

O antigo pró-reitor para o Planeamento e Ambiente aposentou-se em 2007, mas foi professor emérito mais três anos. Hoje, a seiva que o liga à UTAD continua a correr: “tenho a esperança de manter o que está e prosseguir nos projetos de fazer mais coleções temáticas e uma rede de caminhos pedonais nas escarpas do Corgo que una o jardim da cidade com o nosso”.

Texto publicado originalmente na página da UTAD por ocasião da comemoração daos 40 anos da instituição.

Créditos: Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)

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